O nosso mineiro pão de queijo já anda até sendo exportado para a China. Mas o tradicional, o típico, o autêntico, o caseiro, o nosso mesmo é só pelas bandas de cá... você duvida?
Outro dia recebi a visita de uma amigo mineiro, que foi morar no Canadá. Ele contou que anda conquistando os amigos de lá com as quitandas daqui e resolveu fazer um pão de queijo pra mim, aqui em casa.
Foi ao supermercado, comprou lá o polvilho (nem sei se doce ou azedo) e uns pacotes de queijo ralado, que também nem sei qual tipo era. Abriu a geladeira, viu se tinha os demais ingredientes e pronto. Não adiantou nada.
No dia seguinte, quando cheguei em casa, senti o cheiro de pão de queijo. Pensei com meus botões: êba, pão de queijo da hora, quentinho. Vamos ver as habilidades desse mineiro/canadense.
Tenho que confessar, e ele que me perdoe: foi só desastre: o pão de queijo ficou duro, sem aquela típica elasticidade de um bom e autêntico pão de queijo. O cheiro era bom, mas só. Ele pegou cada um, olhou, cheirou, provou (acho que nem provou) e acabou jogando fora, um a um. Fez isso rapidamente, contra a minha vontade, já que não gosto de jogar nem comida, nem qualquer coisa que valha no lixo. Mesmo porque, produzir lixo, assim assim, não é comigo.
Não sei o que os canadenses andam comentando das quitandas do meu amigo por lá...
O Quitandas de Minas, receitas de família e histórias (o livro), tem um capítulo só com receitas de pão de queijo, mas vou deixar aqui hoje uma receita vinda diretamente da cidade do Serro, das mãos da D. Lucinha.
A cidade do Serro, no vale do rio Jequitinhonha é famosa por produzir o melhor queijo de Minas.
D. Lucinha, senhora conhecida pela maestria culinária, exportou seu know how da cozinha mineira e tem uma rede de restaurantes pelo Brasil afora, garante que com um quilo de polvilho dá pra fazer até 70 pães de queijo. E é essa a receita do pão de queijo da D. Lucinha:
1 kg de goma (polvilho)
1 copo de água
1 copo de gordura (oleo)
3 ovos
1 pitada de sal
400 g de queijo-do-serr0, ralado grosso - meia cura
leite, para dar ponto.
Pôr o óleo e a água para ferver. Escaldar a goma e misturar até esfriar. Despois de frio, colocar os ovos, um a um, sovando sempre. Pingar leite aos poucos e continuar sovando até dar o ponto de enrolar. Por último, colocar o queijo e misturar. Untar as mãos com óleo e enrolar. Levar para assar em forno pré-aquecido, por aproximadamente 20 minutos, dependendo da qualidade do seu forno.
Bom, nesse tempo - aliás, qualquer tempo- esse pão de queijo faz par perfeito com um café passado na hora.
"Café o dia todo, mal esfriava no bule e se coava outro. Todos passavem café, Maria, Antônio e Nico. Sabia-se a diferença da autoria pelo adoçado, cada um, uma medida."
Del fuego, Andrea. Os malaquias. Ed. Língua geral, 2010.
Outro dia fui passear na casa da roça onde moram os pais da Marilene. Como é roça, não tem pão de padaria todo dia, e nem precisa. A cada amanhecer, quando a gente senta para o café da manhã, ou à tarde, um café rápido entre uma prosa e outra, a gente sente logo um cheiro vindo do forno, um biscoito sendo frito no fogão à lenha, na hora. É sempre surpresa ao olfato e ao paladar. Da última vez que tive lá, acompanhei a feitura dessa broinha de fubá, que nem foi de fubá de canjica não, que é mais famosa e mais difícil de fazer, mas que ficou igualmente deliciosa. Segue a receita com permissão da D. Mariinha:
2 copos de leite
2 copos de água
2 copos de fubá de canjica
2 copos de farinha de trigo
1 copo de óleo
1 copo de açúcar
1 pitada de sal
Misturar todos os ingredientes e levar ao fogo até fazer um angu. Deixar esfriar. Colocar ovos até amolecer. Usa-se mais ou menos 8 ovos. A massa deve ficar um pouco mole. Para formatar as broinhas, coloque farinha de trigo numa xícara (seria melhor uma cabaça), uma porção de massa e modele, rodando a xícara. Depois despejar num tabuleiro untado e enfarinhado e levar para assar em forno quente, até dourar.
Nem precisa falar que, para a foto, tive que pegar o tabuleiro, colocar na janela e ajeitar as que sobraram, porque a meninada já tinha comido um monte, quente, assim mesmo. Ficaram deliciosas e acabou antes de esfriar!
Dia 08 de julho é o dia de Santa Isabel, padroeira dos panificadores, e é por isso dia do padeiro. Achei esse texto lindo da Roseane Murray e resolvi colocar aqui. Viva o padeiro e seu pão tão bom, de todo dia, nos dai hoje e sempre! Receita de Pão
É coisa muito antiga
o ofício do pão
primeiro misture o fermento
com água morna e açúcar
e deixe crescer ao sol
Depois numa vasilha
derrame farinha e o sal
óleo de girassol manjericão
Adicionado o fermento
vá dando o ponto com calma
água morna e farinha
Mas o pão tem seus mistérios
na sua feitura há de entrar
um pouco da alma do que é etéreo
Então estique a massa
enrole numa trança
e deixe que descanse
que o tempo faça a dança
Asse em forno forte
até que o perfume do pão
se espalhe pela casa e pela vida.
do livro Receitas de Olhar, de Roseane Murray. São Paulo: Ed FTD, com ilustrações de Elvira Vigna. A foto é de uma padaria artesanal feita num lugarejo da região metropolitana de Belém (PA)
De acordo com a socióloga Mônica Chaves Abdala, o pão de queijo mineiro deve ter sido "inventado" lá pelos meados do século XIX e, a partir dai, passou a ser produzido e consumido regularmente, o que o tornou uma das quitandas típicas do estado, transformando Minas Gerais na "república do pão de queijo" quando o mineiro Itamar Franco assumiu a presidência da República em 1992.
Como dizia o diplomata Guimarães Rosa "Minas Gerais são várias. São pelo menos, várias Minas".
Seguindo essa prosa de muitas e variadas, de renovação permanente e, porque mineiro também é vanguarda, andando por aqui, sempre se acha novidades. Foi numa dessas andanças que encontrei mais uma receita do nosso famoso e já internacional pão de queijo, versão renovada com abóbora, essa maravilha que se encontra facilmente durante quase todo o ano. Certeza de boa combinação, segue a receita para que seja experimentada:
4 copos de polvilho doce1 copo de óleo1 copo de leite1 copo de água 1 copo e meio de queijo minas curado ralado 150g de abóbora cozida e amassada7 ovosLevar ao fogo o óleo, o leite e a água até levantar fervura. Despejar essa mistura sobre o polvilho em uma vasilha. Misturar tudo. Acrsecentar a abóbora, os ovos e o queijo ralado. Continuar mexendo até amornar a massa. Com as mãos, amassar bem até o ponto de enrolar. Untar as mãos e fazer as bolinhas. Colocar no tabuleiro untado e levar para assar em tabuleiro médio pré-aquecido.
Quando estava fazendo o Quitandas de Minas, procurando as quitandas nos cadernos da Dinha Lete - claro que o caderno dela tem muito mais receitas, com letras de todo mundo, já que ela ficava mais por conta das panelas que das letras -, encontrei essa receita numa folha solta.
No verso da receita o que vi foi uma prova de latim, datada de março de 1959, da tia Áurea, menina na época. Nem imagino que ano de escola ela poderia estar. Acho que no dia dessa prova, minha mãe ainda não tinha ideia que eu já estava a caminho, mas já estava! Minha avó só tinha um neto e seguramente queria uma neta, pra fazer um par, como eles costumavam dizer. Talvez tenha sido esse o "sonhos da vovó" e como esse sonho, ou bolinho é muito apreciado nos dias de chuva, também recebe o nome de Bolinhos de chuva, delícia também presente nas citações de Monteiro Lobato.
Segue a receita, espero que você goste!
Sonhos da Vovó
3 ovos
3 xícaras de farinha de trigo
1 pitada de sal
Leite na quantidade suficiente para dar consistência mole
1 colher (sobremesa) de fermento em pó
2 colheres (sopa) de açúcar.
Modo de fazer:
Bater as claras em neve. Juntar o sal, a farinha, o fermento, o açúcar e as gemas, uma a uma, misturando um pouco de leite. Depois de tudo batido, fritar as colheradas, em óleo bem quente, virando sempre até ficarem bem coradinhas. Passar em açúcar refinado com canela e servir ainda quente, de preferência acompanhado de um bom chá ou de um café passado na hora!
E se tiver chovendo, fica completo. É só prolongar a prosa enquanto a chuva não pára! Se a tarde estiver frita, serve pra acompanhar um café feito na hora.