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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os malaquias



"A jabuticabeira tinha ao pé um pedaço de trono gasto, banco de Antônio degustar as bolinhas e encher com elas o chapéu. Tingia as mãos e a barra da camisa na tinta da fruta, a jabuticaba explodia como fogos de artifícios na boca de Antônio.


Enquanto ele se adoçava, Geraldina descansava amigável entre as bolinhas do tronco. Maria reclamou da árvore para Nico. Depois que deu fruta, Antônio ficava debaixo dela, fazendo falta dentro de casa."






Del fuego, Andréa. Os malaquias. Ed. Lingua Geral, 2010.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

um pouco de literatura


24 de junho é dia de São João, e tem festa junina por todo o Brasil, e até pelas terras ibéricas que foi por onde elas chegaram aqui: pular fogueira, quentão, pé de moleque, canjica, pipoca, brincar, arranjar namorado e até casar. Festa ancestral e ritualística, muito bem aproveitada popularmente, mas vou aqui contar outra história.
Há exatos 12 anos, era LUA NOVA e eu estava em Paris, em plena Copa do Mundo de Futebol. Conheci um moço que julguei especial. Eu estava com o coração livre, ele se colocou interessado, disponível. O Cupido atacou. E, não deu outra: me apaixonei.

Conversa vem, conversa vai, já faz tempo que não o vejo: muita água passou debaixo da ponte: virei a minha mesa, mudei de profissão, conheci muita gente, fiz vários amigos, publiquei dois livros (já quase três), viajei bastante, fiz um montão de coisas bacanas, inclusive esse blog, que foi sugestão do tal.
Então, estava eu procurando uma receita especial para deixar para esse moço e achei esse conto, de Ivana Arruda Leite, publicado no livro Falo de mulher. Ateliê, 2002 . Não é uma quitanda, mas vale para celebrar a data, as coisas, os feitos, as palavras e as decepções. Vixe! E foram muitas. Se pelo menos rende literatura, não posso reclamar. É lucro na certa! E o melhor é poder compartilhar.


"Receita para comer o homem amado:

Pegue o homem que a maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro-verde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolocer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais. "

E ponto final!

(a foto é do restaurante Chez Clémant -Porte de Versailles- em Paris, na época, toda decorada com balaios e mais balaios de cerejas in natura, uma maravilha. Por ali a gente passava todo dia, era o "caminho da roça". O tal moço dele estar, por essas horas, lá pelas terras de Mandela, já que segue na mesma lida)

quarta-feira, 10 de março de 2010

A pipoca

A pipoca é filha do milho, todos sabemos.

E, entre livros e panela, literatura e coisas da cozinha sempre fizeram um belo par, um casal perfeito. Como me disse Nélida Piñon, os personagens sempre têm fome, por isso encontramos tantos banquetes nos romances, ou personagens à beira da morte por não comer, como em Vidas Secas de Graciliano Ramos.

Rubem Alves nos brinda com um belo texto a partir da pipoca. É um texto longo, em se tratando de blogs, mas vale a pena.
Curta-o:

"As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

Texto de Rubem Alves, publicado no jornal Correio Popular, de Campinas- SP